América Latina: um campo minado do crime organizado e da violência
José Maria Nóbrega Jr. – Doutor em Ciência Política pela UFPE. Professor Associado da UFCG.
A América Latina é responsável por praticamente 40% dos homicídios do mundo.
A região é marcada por altíssimas taxas de homicídios, facções criminosas
dominando extensos territórios e tráfico de drogas. Muito desse descontrole da
violência se dá pela incapacidade institucional de conter o crime, a violência
e a corrupção. As correlações são fortes.
Estado democrático de direito é um ingrediente das democracias
contemporâneas. Isso denota que a qualidade da democracia (eleições livres e
limpas, direitos civis garantidos e responsabilização horizontal) está
intimamente conectada à qualidade das instituições de controle.
Por exemplo, o Brasil contemporâneo é um regime político de instituições
fracas dominadas por atores políticos e sociais que são de legibus solutus,
ou seja, que ultrapassam os limites institucionais. Isso está provocando um
déficit de confiança nas instituições e colocando em discussão a lisura do
processo eleitoral.
Voltando à América Latina, a região é povoada por milhares de pessoas
que vivem em territórios dominados por grupos de narcotraficantes, faccionados
e terroristas. Esses elementos determinam regras sociais, políticas e
econômicas fazendo a sua própria governança criminal desafiando o estado de
direito democrático. Esse estado de coisas ilegal é bastante corriqueiro na
região e, especificamente, em boa parte do território brasileiro.
Os índices da América Latina de Justiça Criminal (trata-se de: a. um
sistema de investigação criminal efetivo e eficaz; b. um sistema efetivo de
acusação e prisão de criminosos; c. um
sistema de correção eficiente e bem administrado; d. uma justiça
criminal independente e imparcial; e. um sistema de justiça criminal livre da
corrupção; f. um sistema de justiça criminal livre da influência dos governos;
g. com um processo de garantia aos direitos dos entes acusados. O indicador é
medido entre 0 e 1, quanto maior for, maior é o nível de justiça criminal.
World Justice Project), de corrupção (trata-se do indicador de percepção da
corrupção da organização Transparência Internacional. Os dados são mensurados
entre 0 e 100 e quanto maior for, maior é o controle da corrupção no país), de
violência (medida pelas taxas de homicídios por grupo de cem mil habitantes),
de crime organizado (trata-se do indicador do Global Organized Crime Index que
é uma ferramenta multidimensional que avalia o nível de criminalidade e
resiliência ao crime organizado em 193 países ao longo de três pilares
principais: mercados criminosos, atores criminosos e capacidade estatal para o
controle do crime organizado) e de democracia (medido pelo indicador do
Democracy Index da Revista The Economist. Este indicador é mensurado entre 0 e
10, sendo os países com índices entre 8 e 10 considerados democracias
consolidadas, os países abaixo de 8 até 4 como países semidemocráticos ou
semiautoritários e os abaixo de 4 como países autoritários) estão
correlacionados. Isso quer dizer que os níveis dos regimes políticos são
dependentes de instituições coercitivas que controlem o crime violento e o
organizado e a corrupção.
Conforme os dados da tabela 1, temos o que Mainwaring et al (2001) chamaram de semidemocracia em sua média (6,01, cf. tabela 2). Os países da América Latina, a exceção de Uruguai, Costa Rica e, em menor grau, Chile, são classificados como democracias. A maior parte fica numa zona híbrida semidemocrática e a Venezuela é o único de nossa amostragem a ser classificada como autoritário.
A
tabela 2 sumariza as médias dos indicadores da região. Como dito, a maioria cai
numa zona entre democracia e autoritarismo. O crime organizado é alto e o nível
de resiliência, que é a capacidade de controle do crime organizado, é baixo. A
justiça criminal é fraca, bem como o controle da corrupção é pífio,
caracterizando uma região com alto índice de criminalidade organizada e de corrupção
que, como veremos na tabela 3, estão altamente correlacionados. A taxa de
homicídios de 17,3 é a maior do mundo entre as regiões do planeta.
As
correlações estatísticas demonstram o que é especulado pela teoria.
Correlacionando as matrizes de dados da tabela 1, temos os seguintes resultados
descritos conforme a tabela 3:
Correlação
entre democracia e crime organizado = -0,554. Correlação alta com sinal
esperado pela teoria. Quanto maior o nível de democracia, menor a
criminalidade. Correlação entre democracia e justiça criminal = 0,945.
Correlação altíssima com sinal esperado pela teoria. Quanto maior o nível de
democracia, maior o nível da justiça criminal. Correlação entre democracia e
violência = -0,304. Correlação de fraca a moderada com sinal esperado pela
teoria. Quanto maior o nível da democracia, menor é a tendência da violência
ser grande. Correlação entre democracia e corrupção = 0,892. Correlação
altíssima com sinal esperado pela teoria. Quanto maior o nível da democracia,
maior é o controle da corrupção. Correlação entre democracia e resiliência =
0,860. Correlação altíssima com sinal esperado pela teoria. Quanto maior o
nível da democracia, maior é a sua capacidade de controle do crime. Correlação
entre crime organizado e justiça criminal = -0,697. Correlação alta com sinal
esperado pela teoria. Quanto maior o nível da justiça criminal, menor será a
capacidade de ação do crime organizado. Correlação entre crime organizado e
violência = 0,428. Correlação moderada com sinal esperado pela teoria. Quanto
maior o crime organizado, maior é a tendência a ter violência homicida. Correlação
entre crime organizado e corrupção = -0,766. Correlação alta com sinal esperado
pela teoria. Quanto maior o crime organizado, menor o controle sobre a
corrupção. Correlação entre crime organizado e resiliência = -0,267. Correlação
fraca, mas com sinal esperado pela teoria. Quanto maior o monopólio da força
por parte do Estado, menor o espaço de atuação do crime organizado. Correlação
entre justiça criminal e violência = -0,253. Correlação fraca, mas com sinal
esperado pela teoria. Quanto maior o nível da justiça criminal, menor é a
tendência a ter mais violência. Correlação entre justiça criminal e corrupção =
0,954. Correlação altíssima com o sinal esperado pela teoria. Quanto maior o
nível da justiça criminal, menor é o espaço para a atuação da corrupção. Correlação
entre justiça criminal e resiliência = 0,864. Correlação alta com sinal
esperado pela teoria. Quanto maior a justiça criminal, maior a capacidade
estatal como monopólio da força e da violência legal.
Como
demonstrado nos números, as instituições responsáveis pelo controle da
criminalidade e da violência legal são fundamentais para a qualidade das
democracias na América Latina. O nível é, em sua maior parte, de alto impacto
entre os indicadores, demonstrando que controlar o crime organizado e a
corrupção, altamente correlacionados, é urgente para a consolidação da
democracia na região, especialmente, no Brasil.
REFERÊNCIA
MAINWARING, S.;
BRINKS, D.; PÉREZ-LIÑÁN, A. Classificando regimes políticos na América Latina,
1945-1999. Dados, v. 44, n. 4, p. 645–687, 2001.






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