O apoio à democracia está condicionado ao controle da criminalidade
NA AMÉRICA LATINA os eleitores não estão mais suportando o avanço da criminalidade.
José Maria Nóbrega Jr.*
A democracia é uma forma de
governo em que os eleitores produzem governos e representantes em processos
eleitorais livres, limpos, pluripartidários, periódicos, institucionalizados,
com direito à alternância para os poderes executivo e legislativo. Para isso,
mostra-se fundamental um estado de direito usável pela maioria dos cidadãos,
com equilíbrio entre os poderes em que nenhum ator político seja de legibus
solutus. Estado de direito democrático pressupõe igualdade perante às leis,
mecanismos de freios e contrapesos, imparcialidade da justiça e controle
efetivo de grupos armados pelos atores eleitos.
Em democracias sólidas, o efetivo
controle social do crime e da violência fortalece a confiança e credibilidade
das instituições políticas e públicas.
Na América Latina, o apoio à
democracia é de 52% do eleitorado de 16 desses países, incluindo aí o Brasil
que teve nível de apoio à democracia de 45% ficando atrás de países como
Bolívia, El Salvador e México.
Partindo do nosso argumento
teórico:
•
O apoio à democracia diminui quando o crime
organizado está descontrolado;
•
O apoio à democracia aumenta quando o crime
organizado está controlado;
•
O apoio à democracia diminui quando a justiça
criminal é menos efetiva;
•
O apoio à democracia aumenta quando a justiça
criminal é mais efetiva;
•
O apoio à democracia diminui quando a violência
é alta;
•
O apoio à democracia aumenta quando a violência
é baixa.
Para isso,
vamos fazer análise estatística descritiva e modelos de correlação entre as
variáveis proxies dos conceitos.
•
O crime organizado é definido como
atividades ilegais conduzidas por grupos ou redes que atuam em conjunto,
envolvendo-se em violência, corrupção ou atividades relacionadas, a fim de
obter, diretamente ou indiretamente, um benefício financeiro ou material. Tais
atividades podem ser realizadas tanto dentro de um país como
transnacionalmente. Utilizarei a variável de Crime Organizado do Índice
Global de Crime Organizado.
•
Justiça Criminal é: a. um sistema de
investigação criminal efetivo e eficaz; b. um sistema efetivo de acusação e
prisão de criminosos; c. um sistema de correção eficiente e bem administrado;
d. uma justiça criminal independente e imparcial; e. um sistema de justiça
criminal livre da corrupção; f. um sistema de justiça criminal livre da
influência dos governos; g. com um processo de garantia aos direitos dos entes
acusados. Utilizarei o indicador proxy de justiça criminal do World Justice Project.
•
A violência será medida pelas taxas de
homicídios por cem mil habitantes. Utilizarei
o indicador do Homicide Report das Nações Unidas.
Tabela 1. Apoio à democracia – Crime Organizado – Justiça
Criminal – Homicídios – América Latina – 2024
|
Países |
Apoio
à Democracia (%) |
Crime
Organizado |
Justiça
Criminal |
Homicídios |
|
Argentina |
75 |
5,00 |
3,96 |
4,49 |
|
Uruguai |
70 |
3,22 |
5,83 |
11,25 |
|
Costa
Rica |
63 |
5,53 |
5,72 |
17,75 |
|
Chile |
61 |
5,18 |
5,40 |
6,35 |
|
Venezuela |
60 |
6,72 |
1,08 |
12,75 |
|
Rep.
Dominicana |
55 |
5,02 |
3,75 |
10,92 |
|
Panamá |
54 |
6,98 |
3,46 |
11,71 |
|
México |
49 |
7,57 |
2,50 |
24,86 |
|
Colômbia |
48 |
7,75 |
3,23 |
24,91 |
|
El
Salvador |
47 |
5,92 |
2,17 |
7,90 |
|
Bolívia |
47 |
4,95 |
2,01 |
4,42 |
|
Brasil |
45 |
6,77 |
3,27 |
19,28 |
|
Peru |
44 |
6,40 |
3,29 |
8,60 |
|
Paraguai |
43 |
7,52 |
2,74 |
6,78 |
|
Equador |
42 |
7,07 |
3,13 |
45,72 |
|
Honduras |
36 |
7,05 |
2,70 |
31,44 |
|
Guatemala
|
35 |
6,60 |
3,02 |
23,37 |
|
MÉDIA |
51,41 |
6,19 |
3,37 |
16,03 |
|
DESV
PAD |
11,29 |
1,22 |
1,29 |
11,15 |
|
MÁXIMO |
75,00 |
7,75 |
5,83 |
45,72 |
|
CORREL
APOIO X CRIME |
-0,658 |
|||
|
CORREL
APOIO X JUST CRIM |
0,546 |
|||
|
CORREL
APOIO X HOM |
-0,487 |
Fontes: Global Organized Crime Index
(2023)/Latinobarometro (2024)/World Justice Project (2024)/Homicide Report. Cálculos
das estatísticas descritivas e correlações do autor.
O apoio à democracia foi mais
alto na Argentina, com 75%, e mais baixo na Guatemala, com 35%. A média dos
países foi de 51,41% de apoio, com o Brasil apresentando o dado de 45%.
O crime organizado é mensurado
entre 0 e 10 e quanto maior, maior é o índice de criminalidade organizada. O
maior índice de criminalidade organizada foi de 7,75 da Colômbia e o país com
menor indicador foi o Uruguai, com 3,22. A média dos países foi de 6,19. O
Brasil apresentou o dado de 6,77 estando entre os países de maior criminalidade
organizada da região.
O nível de justiça criminal é
medido entre 0 e 1, quanto maior o indicador, maior é a efetividade do sistema
de justiça criminal. Para melhor trabalhar com os números, parametrizamos para
ser mensurado entre 0 e 10. O maior indicador foi de 5,83 também do Uruguai. O
pior indicador foi da Venezuela, com 1,08 de efetividade. A média foi de 3,37.
O Brasil apresentou o dado de 3,27, abaixo da média da região.
O indicador de violência apontou
para a maior taxa de homicídios de 45,72 do Equador, com a mínima de 6,35 do
Chile e média de 16,03. O desvio padrão 11,15 (o maior entre os indicadores) demonstra
a discrepância dos dados de violência da região. O Brasil apresentou a taxa de
19,28, maior que a média.
As correlações estatísticas são
interpretadas assim:
•
Apoio à democracia associada a menor índice
de crime organizado;
•
Apoio à democracia associada a maior
efetividade do sistema de justiça criminal;
•
Apoio à democracia associada a menor índice
de violência homicida.
Todos os sinais correspondem as
hipóteses e o nível de correlação (os coeficientes) entre os indicadores foi de
moderado a alto. Isto indica que os eleitores/cidadãos latino-americanos estão
condicionando o seu apoio à democracia a resolução dos conflitos violentos que
impactam e ameaçam os regimes políticos da região. Não à toa, há tendência de
inclinação a governos mais duros no combate ao crime. Vide o exemplo de El Salvador
mais recentemente e o apoio à democracia que saltou de 62% em 2023 para 75% em
2024 na Argentina do governo Milei. No Brasil, o incumbente vem perdendo credibilidade
eleitoral em sua tentativa de reeleição e o principal motivo – segundo pesquisas
de opinião pública dos mais diversos institutos – é a crescente da
criminalidade organizada e da corrupção. Tudo isso nos faz concluir que o apoio
à democracia tem como condição o controle do crime e da violência por parte das
instituições republicanas.
*Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE); Professor Associado IV (UFCG); Líder
do Grupo de Estudos da Violência, da Criminalidade e da Qualidade
Democrática (NEVCrim/UFCG/CNPq).



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