17 cidades concentram 61% dos homicídios da Paraíba, e a causa disso é a guerra entre facções criminosas

 


Entre 2014 e 2024, foram registradas 13.477 mortes por agressão (que são as mortes violentas resultado e ação dolosa) na Paraíba, distribuída desigualmente em seus 223 municípios. Desses, 17 concentraram 61% dessas mortes, ou seja, 8.216 homicídios em 7,7% dos municípios paraibanos.

No agregado desses 17 municípios, houve recuo de 34% na série histórica, com 1.046 mortes por agressão em 2014, e 692 em 2024. Contudo, esses dados enganam o observador menos atento.

Por exemplo, Cruz do Espírito Santo, município situado na região metropolitana de João Pessoa, apresentou uma verdadeira explosão em seus números de violência homicida, saltando de 5 homicídios em 2014, para 30 em 2024, um escândalo em se tratando de um município de apenas 17.821 habitantes. Um aumento de 500% onde, em 2024, a sua taxa de homicídios chegou ao maior patamar entre esses 17 municípios, 168,3 homicídios por cem mil habitantes. Isso levou as autoridades da justiça criminal do estado a executar a Operação Regaço Acolhedor na qual foram cumpridos 57 mandados de prisão na cidade e em seu entorno. Pessoas presas por tráfico de drogas, associação ao tráfico e homicídios.

As facções criminosas em conflito em Cruz do Espírito Santo eram a Okaida e o Comando Vermelho. Comando este que domina a cidade de Cabedelo, outro destaque importante.

Cabedelo, cidade litorânea e colada à João Pessoa, foi destaque em programa dominical da Rede Globo, o Fantástico, onde a corrupção se sustentou em vínculos criminosos com o Comando Vermelho. Cabedelo apresentou um aumento de 129% nos números de homicídios entre 2014 e 2024. A taxa de homicídios lá foi na ordem de 82 homicídios por cem mil habitantes.

O Comando Vermelho em sua sucursal em Cabedelo é comandada por um paraibano, Fatoka (Flávio de Lima Monteiro) foragido no Rio de Janeiro, no complexo de favela do Alemão. Fatoka é peça-chave na Operação Asfixia (conduzida pela Polícia Civil e GAECO) em parceria com a Polícia Federal. Relatórios e quebras de sigilo autorizadas pela justiça comprovaram o envolvimento de Fatoka na ordem de assassinatos de seus rivais.

A maioria dos homicídios perpetrados no Brasil tem relação causal com essas facções, se concentra no Nordeste - a taxa de homicídios do Brasil em 2024 foi de 20,8 por cem mil, enquanto a do Nordeste foi de 33,8, a maior entre as regiões - onde a Paraíba apresentou a taxa  de 25,7 no mesmo ano, mas a taxa dessas 17 cidades em destaque foi de 31,1 por cem mil.

Outras cidades também apresentaram histórico crescente de violência homicida, com guerras entre facções criminosas, como são os casos de Pedras de Fogo, com taxa de homicídios de 95 por cem mil, e Bayeux, com taxa de 79,7 por cem mil.

O foco da gestão da segurança no combate dessas facções é imprescindível, mas precisa da ajuda do Poder Judiciário. Há recorrentes solturas de lideranças perigosas dessas facções, a exemplo do Fatoka citado neste artigo e que agora  está foragido no Rio de Janeiro. Sem a manutenção dessas lideranças e de agentes homicidas contumazes na cadeia, dificilmente conseguiremos controlar o crime violento em patamares democráticos.

José Maria Nóbrega - coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, da Criminalidade e da Qualidade Democrática (NEVcrim).

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