República e Crime

José Maria Nóbrega Júnior

Artigo publicado no Jornal do Commercio, Recife. 13/12/16 

A engenharia criminosa no Brasil é muito complexa. Suas peças e mecanismos apontam para a impossibilidade de sucesso de suas práticas, sem a presença de atores estatais corruptos em suas engrenagens. A Operação Lava-Jato, as prisões de políticos importantes e o recuo do STF em relação ao presidente do Senado são dados empíricos que demonstram que o crime está na base de nossa República.

O republicanismo é um valor fundamental para o funcionamento estável e liso das instituições de uma democracia consolidada. Quando o sociólogo Michel Misse define o conceito de “mercadorias políticas” como um dispositivo no qual o poder político só é exercido com trocas entre atores estatais e criminosos, isso nos serve como aparato teórico-social para a análise política do poder no Brasil.

A Operação Lava-Jato revelou a relação espúria entre políticos e grandes empresários. Suas peças e engrenagens estão trazendo a público como a corrupção é combustível para o endosso do poder político.

Na calamidade do Rio de Janeiro, alguns governadores foram verdadeiros ‘chefes de quadrilha’. Sérgio Cabral, por exemplo, montou um esquema corrupto de complexa engenharia do qual resultou a falência do estado.

Comando Vermelho, PCC e as milícias são organizações que não sobreviveriam sem a relação criminosa com atores estatais corruptos. O poder político se torna infiltrado por atores sociais financiados com o dinheiro do tráfico de drogas, das máfias do jogo do bicho e do tráfico de armas pesadas.

Os presídios são o reflexo da corrupção e da base criminosa que alicerça a República brasileira. Os grupos criminosos mais famosos, Comando Vermelho e PCC, nasceram da lacuna estatal e da fortíssima corrupção de seus atores políticos institucionais. Isso resultou na dinamização do crime organizado em todas as unidades da federação.

Hoje, o crime organizado intra e extra estatal é uma realidade nacional. Dentro e fora dos presídios ele cobra o seu preço (violência). Nossa semidemocracia tem como base uma estrutura cleptocrática difícil de ser extinta. A base corrupta e criminosa do estado brasileiro está exposta nas relações espúrias entre atores estatais e grupos criminosos dentro e fora dos presídios, e, também, de dentro e de fora das grandes empresas nacionais.


José Maria Nóbrega Júnior é cientista político da Universidade Federal de Campina Grande, PB.

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