Com mais mortes que Iraque, Brasil está em guerra e não sabe

Com mais de 200 mil pessoas assassinadas no Brasil entre 2008 e 2011, o país faz frente às grandes zonas de guerra do globo, segundo Mapa da Violência

Saulo Pereira Guimarães, de Andréa Farias/Wikimedia

Descrição: Jovem morto no Rio em 2006
No Brasil, mata-se 274 vezes mais do que em Hong Kong e 137 vezes mais do que na Inglaterra
São Paulo – Vivemos em um país em guerra, mesmo que não declarada. Esta é uma das conclusões possíveis a partir da leitura do estudo Mapa da Violência 2013, realizado pelo professor Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e divulgado hoje. Cerca de 170 mil pessoas foram mortas nos 12 maiores conflitos no globo entre 2004 e 2007 (veja tabela abaixo). No Brasil, mais de 200 mil perderam a vida somente entre 2008 e 2011.
Isto tudo sem que o país viva "disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, conflitos de fronteira ou atos terroristas", lembra o levantamento.
Há dois anos - época dos últimos dados disponíveis - foram registradas mais de 50 mil mortes, o que confere ao Brasil uma taxa de 27,1 homicídios para cada 100 mil brasileiros. Desse total, cerca de 40% (18 mil pessoas) eram jovens entre 15 e 24 anos.
O número de assassinatos no Brasil é 274 vezes maior do que em Hong Kong, 137 vezes maior do que na Inglaterra e 91 vezes maior do que na Sérvia, segundo o estudo divulgado hoje. 
Veja abaixo o total de mortes nas maiores zonas de conflito do planeta na década passada: 
País
2004
2005
2006
2007
Total de mortes
Iraque
9.803
15.788
26.910
23.765
76.266
Sudão
7.284
1.098
2.603
1.734
12.719
Afeganistão
917
1000
4000
6500
12417
Colômbia
2.988
3.092
2.141
3.612
11.833
Congo
3.500
3.750
746
1.351
9.347
Sri Lanka
109
330
4.126
4.500
9.065
Índia
2.642
2.519
1.559
1.713
8.433
Somália
760
285
879
6.500
8.424
Nepal
3.407
2.950
792
137
7.286
Paquistão
863
648
1.471
3.599
6.581
Índia/Paquistão (Caxemira)
1.511
1.552
1.116
777
4.956
Israel/Palestina
899
226
673
449
2.247
Total dos 12 conflitos
34.683
33.238
47.016
54.637
169.574
"São números tão altos que torna-se difícil, ou quase impossível, elaborar uma imagem mental, uma representação de sua magnitude e significação", afirma Jacobo, autor da pesquisa.
Segundo o sociólogo, a cultura da violência (caracterizada pelo hábito de resolver conflitos por meio da agressão), a certeza da impunidade (apenas 4% dos assassinos vão para cadeia) e a indiferença da sociedade com o grande número de mortes estão entre as causas do fenômeno. "A vida humana vale muito pouco", resume o pesquisador, que é argentino. 
É preciso observar que a magnitude da violência vista no país não tem equivalência nas nações que possuem dimensões e populações maiores ou similares à brasileira. Só o México chega perto.
País
Ano
População (milhões)
Homicídios
Taxa por 100 mil habitantes
Brasil
2010
190,8
52.260
27,4
México
2011
112,5
24.829
22,1
Rússia
2010
142,5
18.951
13,3
Filipinas
2008
96,1
12.523
13
Nigéria
2008
164,4
18.422
12,2
Indonésia
2008
234,2
18.963
8,1
Paquistão
2010
170,3
13.208
7,6
USA
2010
301,6
16.129
5,3
Índia
2010
1.184,60
41.726
3,4
Bangladesh
2010
158,3
3.988
2,7
China
2010
1.339
13.410
1
Japão
2011
125,8
415
0,3
 
De acordo com o estudo, o número de assassinatos no país cresceu mais de 200% entre 1980 e 2011. Se considerarmos apenas as mortes violentas entre jovens no mesmo período, o aumento é ainda maior: 326% 
Para Jacobo, a tendência nos próximos anos é que grandes cidades como Rio e São Pauloatinjam um nível estável de violência se continuarem investindo em segurança pública – podendo reduzir ainda mais essas taxas com esforços concentrados em áreas como saúde e educação.
Por outro lado, o sociólogo adverte que se nada for feito em regiões onde o número de assassinatos vem crescendo, como Pará e Alagoas, um novo aumento nos índices nacionais de violência poderá ser registrado. 
(a região Nordeste apresenta dados alarmantes em, pelo menos, dez anos consecutivos).
Num levantamento sobre o tema com 89 países, o Brasil fica em sétimo lugar.
"O quadro comparativo internacional já foi bem pior para o Brasil", revela Jacobo. Segundoele, o país era o segundo colocado do ranking da morte em 1999, atrás apenas da Colômbia. De lá para cá, a taxa de homicídios no país não parou de crescer, embora o Brasil tenha perdido posições na lista.
O sociólogo explica que esse "recuo relativo" se deveu "ao crescimento explosivo da violência em vários outros países do mundo", como El Salvador, Guatemala e Venezuela. Escrevi sobre o problema de Venezuela. Tenho paper quase pronto a respeito.


Comentários

  1. Cabe a quem tomar uma atitude? Políticos, governo ou a população se conscientizar?

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