Debate pela internet garante democracia


Foto: Chico Ludermir/ JC Imagem


Publicado em 18.08.2010, às 16h30

Por José Maria Nóbrega*

Especial para o JC Online

Cientista político acompanhou primeiro debate presidenciável online

O primeiro debate entre os principais candidatos a presidente transmitido pela internet foi de total sucesso. De uma vez por todas, a internet veio para ficar! Com a interação, em tempo real, com os internautas pelos diversos veículos da rede, como o twitter, o facebook e o Orkut, tivemos uma das maiores experiências de democracia dos últimos anos. Os candidatos se mostraram atentos aos temas em discussão e considero que todos foram bem.



Marina Silva (PV) iniciou o debate falando sobre a urgência em se implantar a Reforma Política no Brasil, destacando que este assunto foi negligenciado pelos seus adversários. Propôs uma constituinte exclusiva para tal reforma e perguntou a Dilma Rousseff (PT) o que ela propunha sobre isso, já que em todo o governo Lula não se mexeu na questão das reformas política, fiscal e previdenciária. Dilma tergiversou e não respondeu de forma satisfatória a pergunta relevante de Marina. Na Ciência Política sabemos que existem muitos veto players (atores que vetam) no âmbito do poder, isto cria um entrave para a democracia. Dilma, como Serra (PSDB) e, possivelmente Marina, terão grandes dificuldades em implantar uma reforma política ampla no Brasil por questão do excesso de veto players nas arenas decisórias. Já Serra criticou a questão da reforma política – acredito por saber da existência daqueles entraves -, e acertou ao falar de voto distrital misto, sobretudo nas grandes cidades.



O ensino técnico foi amplamente discutido entre os presidenciáveis, com boas propostas entre eles. Dilma e Serra, que já tiveram ampla experiência administrativa, foram mais objetivos em suas propostas, sobretudo o ex-governador de São Paulo que destacou a iniciativa do governo paulistano nesta área de recursos humanos. Marina, por sua vez, afirmou que, sendo eleita, aumentará os recursos em educação sem, contudo, explicar como vai fazer isso.



Ainda sobre o tema educação, Dilma Rousseff foi enfática quanto a sua crítica ao papel do principal aliado do PSDB, o DEM, ao afirmar que parlamentares desta legenda criaram uma lei que impedia a implantação do PROUNI. Serra respondeu que era mentira da candidata do PT e que o PSDB foi precursor na implantação do Fundef que veio a iniciar uma política pública de investimentos específicos em educação aumentando o número de crianças matriculadas nas escolas. Aproveitando ainda o tema, Serra disse que o PT era o partido das teses equivocadas por ter sido contra o Fundef, contra a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal etc. e que o PT era partidário do “quanto pior, melhor!
(sic)”.



O segundo bloco começou com Serra interpelando Dilma a falar sobre o ENEM, afirmando da total irresponsabilidade do governo Lula em tema tão importante. Os últimos fatos, dos vazamentos das provas e do sigilo de informação de vários estudantes, corroboraram para o tom mais aguerrido do candidato tucano. Dilma respondeu afirmando ser um absurdo tal questionamento, que erros acontecem transferindo a culpa de tais erros para a gráfica responsável pela produção das provas.



Em certo momento do segundo bloco, Dilma perguntou a Marina sobre o que ela opinava a respeito do programa “Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal. Marina elogiou os programas sociais do atual governo, e do anterior também, mas criticou que tais programas seriam insuficientes para sanar o problema da pobreza no Brasil, precisando avançar para propostas mais inovadoras, inclusive introduzindo na discussão a questão ambiental – bandeira principal de seu partido.



Ainda no segundo bloco, Marina Silva interpelou José Serra a respeito das favelas paulistanas. Disse que tinha visitado algumas delas e que a situação era muito ruim, ainda citando outras favelas no Brasil, como a do Coque, no Recife. Serra respondeu dizendo que o seu governo tinha tratamento especial nesta questão e que favelas, como Heliópolis, tinham sido urbanizadas se transformando em verdadeiras cidades.



Outros assuntos foram tratados com pertinência em todo o desenrolar do terceiro e quarto blocos, repetindo a questão da Reforma Política, e quais políticas públicas os governos dos candidatos destinariam para o alargamento de acesso a internet. Contudo, foi no quinto bloco que as perguntas dos internautas tiveram vez.



A pergunta do internauta chamado Romeu foi muito boa, destinada a candidata Dilma. Ele perguntou se ela não seria uma candidata improvisada. Dilma foi elegante com o eleitor e respondeu bem a pergunta, destacando seu trabalho na administração pública, sobretudo como ministra da Casa Civil.



Outra pergunta boa foi direcionada ao candidato Serra pelo eleitor de nome Cléber a respeito do loteamento político. Serra também teve uma boa desenvoltura na sua resposta, afirmou que não permitiria tal política, apesar de sabermos que isto na atual conjuntura da política brasileira é praticamente impossível.



O último bloco foi destinado as perguntas dos jornalistas. A pergunta do jornalista representante da Folha/UOL foi bastante pertinente quando focou na doença da candidata do PT. Dilma mais uma vez foi bem na resposta, destacando que o câncer é uma doença curável e que estava bem para lutar pela vaga de presidente e que sua saúde estaria bem quando, se eleita, assumisse o cargo.



No geral o debate foi bom, mas o que posso afirmar com veemência foi a excelência deste debate ter sido transmitido pela internet. Um avanço, finalmente a introdução da sociedade brasileira na Sociedade em Rede de Castells. De muito bom nível, provou que o eleitorado brasileiro vem amadurecendo, pelo teor das perguntas a gente percebe isto, e que os candidatos vem também passando por esse processo de amadurecimento. Foi uma vitória para a ainda frágil democracia brasileira.



*José Maria Nóbrega é doutor em ciência política pela UFPE

Comentários

  1. É lamentável, o cinismo de quem tenta esconder na escuridão da madrugada, bandidos, filhos de pessoas importantes e afortunada da sociedade pernambucana, preferindo imputar culpas em pessoas de pouco ou quase nenhum poder econômico, acredito que não seja necessário esclarecer que são sete pessoas do povo, escolhido aleatoriamente na sociedade, com o importante papel de decretar culpados ou inocente dentro do Artigo quinto da nossa carta magna. A manifestação publica do povo que comemorou o veredito final no caso das duas menores desaponta os números das pesquisas que dão descredito ao judiciário. Nunca verei no banco dos réus os Milionários que promoveram o bacanal que as menores participaram, o delegado conhecido como o anjo da impunidades dos ricos, o pai da menor que até hoje não convenceu de que forma encontrou os corpos. Certamente ainda é pouco para muitos o cínicos que tentam descredibilizar a decisão dos jurados que não se venderam para representantes da élite local. Jesiel Rodrigues

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