Virtude ou fortuna?


Publicado em 20.07.2010 (Jornal do Commercio)


José Maria Nóbrega
josemarianobrega.blogspot.com

Às vésperas das eleições, um fato me chamou atenção: o constrangimento dos candidatos majoritários em serem ricos. Ou seja, ser rico é sinônimo de “explorador”, de quem tem vida boa e por isso não sabe o que um pobre necessita e sente. Coisas do tipo. Como se tendo atestado de pobreza o condicionasse a ser um bom gestor público! Que cultura é essa que enxerga na riqueza um caráter de desqualificação política? Isso é típico de países com cultura ibérica e católica que enxergam negativamente o acúmulo econômico adquirido pelo trabalho e pela atividade financeira. Já a cultura de países como os Estados Unidos e a Inglaterra a riqueza individual - exemplificada no self-made man rockefelleriano - é vista de forma positiva e até elogiável.

Sérgio Xavier, candidato a governador pelo Partido Verde, divulgou seu patrimônio ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) sendo o maior dentre os candidatos à majoritária. Logo vieram rumores a respeito de sua riqueza que surpreendeu até seus colegas de partido. Não sei qual a origem do patrimônio do candidato, e acredito ser legal toda a sua declaração, mas qual seria o problema de termos um governador rico gerindo o estado de Pernambuco? O foco não deveria ser no seu patrimônio, mas em sua capacidade de governar sem levar em consideração para quem se estar governando.

Na verdade, quando uma sociedade julga aqueles mais ricos de forma negativa pode existir um impedimento para o desenvolvimento dessa mesma sociedade. Ser rico ou ser pobre não é questão apenas de fortuna, mas, sobretudo, de se ter virtudes. Existem homens ricos que não têm virtude - aqui não defino a virtude como uma qualidade cristã, religiosa ou do ato benevolente característico de pessoas como Madre Tereza de Calcutá, mas característica da qualidade de agir conforme as circunstâncias do momento em prol do bom andamento e da boa administração da coisa pública ou privada - e mostram isso em atos desastrados ou catastróficos.

Veja o caso de jogadores de futebol que alcançam o estrelato da noite para o dia, onde a Fortuna (a deusa romana) bate às suas portas, mas os pegam desprevenidos por não terem virtude suficiente para controlar as vaidades e vicissitudes que a Fortuna traz consigo. Para mantê-la ao seu lado de forma contínua, há necessidade de um exercício virtuoso que requer capacidade intelectual e emocional de quem foi agraciado com a visita dessa deusa milenar.

O caso do goleiro Bruno Fernandes, do Flamengo - maior clube de futebol do Brasil - retrata bem essa falta de virtuosidade de um sujeito simples, de origem pobre e com sérios problemas psicológicos, que teve a visita da deusa em sua vida, mas que não conseguiu minimamente controlar os caprichos da Fortuna. Não existe sucesso apenas com a Fortuna, valendo também para a virtude. Do outro lado, apenas a qualidade virtuosa sem a visita da deusa romana não consolida uma vida de sucesso.

Outro caso importante que vem tendo destaque nacional é a catástrofe previsível das enchentes nas cidades da Mata Sul pernambucana. O Rio Una, depósito de lixo e dejetos das comunidades ribeirinhas das diversas cidades destruídas, foi colocado como o principal responsável pela enchente. Contudo, faz décadas que os governantes desvirtuosos dessas cidades - todos eles preocupados apenas com seus dividendos eleitorais e com os empregos de seus apaniguados - não focaram suas energias para sanar o problema dos entulhos, esgotos clandestinos e construções irregulares às margens do rio. Daí, o Rio Una devolveu tudo o que foi jogado irresponsavelmente em suas águas para dentro das cidades que foram praticamente destruídas. Então, quem foi o principal responsável pela catástrofe: o Una ou os gestores públicos desvirtuosos?

Até quando vamos continuar elegendo políticos/gestores irresponsáveis (sem nenhuma virtude administrativa, diga-se de passagem) para administrarem nossas cidades, sobretudo as do interior?

Continuando a eleger tais políticos desvirtuosos, futuramente teremos mais cheias, mais mortes, mais gente desabrigada, mais catástrofes. Estaremos dando a eles a fortuna de mãos beijadas através do voto!

» José Maria Nóbrega, doutor em Ciência Política, é professor universitário

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