sábado, 4 de março de 2017

Criminalidade homicida na Paraíba 2004/2014

Vivendo na Paraíba há seis anos passei a entender melhor a sua geo-política e geografia. Como estudioso da criminalidade, da violência e das instituições políticas coercitivas, produzi vários trabalhos - sozinho e em parceria - sobre a dinâmica da violência no referido estado, analisando sobretudo a capacidade, ou não, do Estado na contenção da violência homicida. Nessa perspectiva, analisarei, numa série histórica de dez anos, os dados de homicídios (mortes por agressão no SIM/DATASUS) em números absolutos de algumas microrregiões importantes da Paraíba. Também é importante destacar que o Governo implementou uma política pública específica na área setorial da Segurança Pública a partir de 2011 com o intuito de arrefecer os indicadores de homicídios no estado. A exposição partirá de uma análise dos dados e numa tentativa de avaliar a policy desenvolvida entre 2011 (quando do implemento desta) e 2014 (final do Governo que implementou a policy). Outrossim, os dados do banco de dados escolhido para a análise tem em 2014 o seu último ano consolidado.

Tabela 1.  Municípios e suas principais microrregiões - Homicídios 2004 a 2014

Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Bayeux, Cabedelo e João Pessoa representam os dados da Região Metropolitana; Cajazeiras e Sousa representam o Sertão; Monteiro representa o Cariri paraibano; Campina Grande e Guarabira, o Agreste. Há uma distribuição razoável do ponto de vista geográfico e estes municípios representam as maiores populações dessas microrregiões. 

Os dados agregados computaram 7.354 assassinatos em dez anos (somatório 2004/2014), com destaque as duas maiores cidades do estado, João Pessoa (Capital) e Campina Grande. Já a distribuição desses dados não é uniforme.

Gráficos 01 e 02. Homicídios Absolutos distribuição no Sertão (2004/2014)


Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Observa-se a dispersão dos dados nos gráficos acima. Em Sousa os dados são mais uniformes com dois out-siders em 2007 e 2011 (pico do período). Entre 2004 e 2014 foram 193 assassinatos nos representantes do Sertão. Cajazeiras apresentou dado de crescimento contínuo com uma correlação maior entre a série histórica e o crescimento dos homicídios. O implemento da política pública de segurança em 2011 pouco afetou a criminalidade homicida em Sousa e teve correlação inversa em Cajazeiras, que apresentou crescimento exponencial dos assassinatos no período pós-política.

Gráfico 03. Homicídios Absolutos distribuição no Agreste (Campina Grande como proxy) (2004/2014)
Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Observando os dados em Campina Grande, proxy escolhido para o Agreste paraibano, vimos que os dados são explosivos até 2010. Entre 2010 e 2012 há uma queda, com pico em 2013 e nova queda em 2014. No período da aplicação da policy houve uma tendência de arrefecimento aos anos consecutivos de crescimento. Entre 2004 e 2014 foram 1.650 pessoas assinadas na cidade. Campina Grande tem uma população de, em média, 400 mil habitantes, teve em 2014 174 assassinatos o que resultou numa taxa por cem mil habitantes de 43,5 óbitos por agressão, ou quatro vezes o tolerável.


Gráfico 04. Homicídios Absolutos distribuição no Cariri paraibano (Monteiro como proxy) (2004/2014)



Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM


Observando Monteiro como representante do Cariri, vimos que os dados de homicídios explodiram pós-policy. Entre 2011 e 2014 o crescimento percentual de criminalidade homicida foi de 71%. Os dados na série histórica toda apresentam-se oscilantes nos primeiros anos, mas a partir de 2010 a correlação é positiva com a série histórica. O programa do governo para o controle da criminalidade homicida não funcionou no Cariri (pelo o menos até 2014).

Gráficos 05, 06 e 07. Homicídios Absolutos distribuição na Região Metropolitana (João Pessoa, Bayeux e Cabedelo) (2004/2014)



Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Em relação aos dados de homicídios na Região Metropolitana de João Pessoa, os dados apontam para uma correlação negativa forte entre o implemento da policy e a redução da criminalidade medida pelos homicídios entre 2011 e 2014. O destaque vai para Cabedelo que, entre 2011 e 2014 teve 69,6% de redução nos números absolutos de homicídios. Bayeux e João Pessoa também apresentaram redução depois de anos consecutivos de crescimento (-20% e -21% respectivamente).

Gráfico 08. Homicídios Absolutos distribuição nos oito municípios (nas regiões) agregados (2004/2014)

Fonte: MS/SVS/CGIAE - Sistema de Informações sobre Mortalidade - SIM

Os dados agregados para os oito municípios em tela demonstram queda das mortes por agressão a partir de 2011, depois de anos consecutivos de crescimento. Para o gestor da pasta da Segurança Pública, é um dado importante e aponta para o sucesso da política. Mas, como vimos na análise aqui empreendida, o comportamento dos dados nos diz que a policy foi bem-sucedida apenas na Região Metropolitana (onde está concentrada a maior parte dos assassinatos e, também, dos eleitores). A média geral de redução foi de -19%. Contudo, o Cariri paraibano, o Agreste e, sobretudo o Sertão, viram a criminalidade homicida sair ainda mais do controle justamente no período do implemento da policy.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Venezuela: explosão dos homicídios e sua relação com o governo de Hugo Chavéz

A democracia é um regime político que, além do mecanismo de escolha dos governantes, foca na qualidade do estado de direito em sua eficácia (burocracia) e eficiência (sistema legal), sobretudo no que tange as garantias dos direitos fundamentais, dos quais a vida é um deles (O´DONNELL, 2000). Na Venezuela, em dez anos do governo de Hugo Chavéz, a democracia perdeu, além do caráter alternativo no âmbito do poder, a capacidade de promover o estado de direito democrático. Os números absolutos de homicídios aumentaram de 4.550 assassinatos, em 1998, para 13.156 em 2007 (gráfico 1). O impacto percentual foi de 189% de aumento no período. As taxas de homicídios por cem mil habitantes saltaram de 20 para 49/100 mil.

A Venezuela é o único País da América do Sul a ser classificado, entre 2006 e 2015, como Nação Não-Livre (Not Free) pela importante agência de pesquisa Freedom House (FREEDOM HOUSE, 2016).

Gráfico 1. Homicídios em Venezuela – N. Absolutos – 1998/2010




Fonte: Observatorio Venezoelano de Violencia y del Centro para la Paz, Universidad Central de Venezuela; Ministerio del Poder Popular para las Relaciones de Interiores y Justicia, Instituto Nacional de Estadística (INE) para Venezuela (montado pelo autor tendo como base a tabela 1.8 in BRICEÑO-LÉON & CAMARDIEL [2009: p. 31]

Briceño-León et al (2008) aferiram como a população venezuelana avaliou a gestão do Presidente da República na área da segurança pública e quanto de confiança tinha em relação à capacidade do governo em dar uma resposta rápida e satisfatória na situação da violência. Na pesquisa de opinião apontada no trabalho daqueles autores foram aplicadas algumas perguntas.

Uma das perguntas era se o cidadão estava de acordo com a maneira pela qual o governo nacional estava afrontando a situação de insegurança no país. 54% dos entrevistados se mostraram insatisfeitos com a política de enfrentamento ao crime adotada pelo governo. Quanto ao nível socioeconômico, as classes mais abastadas se mostraram menos satisfeitas ainda. Como exemplo, os cidadãos de classe A considerados na pesquisa responderam estar insatisfeitos com o governo nesta área a um nível de 77% de rejeição daquela política de segurança (BRICEÑO-LÉON et al, 2008: 165-6).

Numa análise que levou em consideração os doze meses do ano de 2007, os pesquisadores mediram a (in)satisfação do cidadão venezuelano em relação à gestão pública da segurança do governo nacional. Os resultados da mensuração mostraram que 24% das pessoas consideraram que a gestão do governo foi positiva nesta pasta, ou seja, muito boa. Já 34% apontaram como regular e 42% consideraram muito ruim a forma que o governo nacional enfrentou o problema da insegurança pública (BRICENO-LEON ET AL, 2008: 168). [cf. gráfico 02].


Fonte: Observatório da Violência na Venezuela (OVV-LACSO; 2008)

Além da mensuração em torno da gestão em segurança pública, Briceño-Léon et al (2008) procuraram avaliar qual o nível de confiança da população venezuelana em seu governo nessa mesma perspectiva de políticas públicas. A pergunta utilizada pelos pesquisadores foi incisiva quanto ao papel do governo de Hugo Chavez na pasta da segurança: Quanta confiança você tem no governo de Hugo Chavez na sua capacidade de controlar a violência e de solucionar o problema da segurança?

Numa escala de quatro respostas – muita confiança, alguma confiança, pouca confiança e nenhuma confiança -, 54,6% dos entrevistados disseram ter nenhuma (25,8%) ou pouca confiança (28,8%) no governo de Hugo Chavez na pasta da segurança pública, superando os 50% de insatisfação.

Dessa forma, a gestão do governo bolivariano apresentou pouca eficácia/eficiência para a maioria do povo daquele país. No período da gestão Hugo Chavez o aumento da violência homicida indicou o termômetro da insegurança pública encontrada na Venezuela.

Em uma regressão linear o nível de significância estatística foi elevado para o teste temporal do governo de Chavez em relação aos homicídios (tabela 01).

Tabela 01. Modelo Sumarizado da Regressão Linear
Anos (ind) x taxas hom (dep) – Venezuela (1998-2010)
Dependent Variable:taxa hom
Equation
Model Summary
Parameter Estimates
R Square
F
df1
df2
Sig.
Constant
b1
Linear
,820
36,435
1
8
,000
-5328,273
2,679
The independent variable is ano.

O R Square de 0,820 indica o nível elevado do período (governo Chávez) sobre as taxas de homicídios, com 100% de significância estatística. Ou seja, em mais de 80% a violência foi potencializada justamente no período do governo chavizta.

Gráfico 03. Taxas de Homicídios na Venezuela x Governo Chavéz – Modelo de Regressão – Representação Gráfica (eixo X = Anos (período do governo Chavéz); eixo Y = Taxas de homicídios)

O modelo estatístico aponta para a relação entre o governo de Chavéz e a incapacidade estatal de se controlar os homicídios, estes sendo utilizados como proxy para os direitos fundamentais os quais o estado democrático de direito deve ser eficaz e eficiente (efetivo) na sua garantia. Na Venezuela de Chavez, a carnificina imperou, o que se repete de forma mais drástica na atual conjuntura social venezuelana.

Bibliografia

BRICEÑO-LÉON, ÁVILA & CAMARDIEL (2009), Inseguridad y Violencia en Venezuela. LACSO. Venezuela.

FREEDOM HOUSE IN THE WORLD (2016), Anxious Dictators, Wavering Democracies: Global Freedom under Pressure. Highlights from Freedom House’s annual report on political rights and civil liberties.


O´DONNELL, Guillermo (2000), “Poliarquias e a (in)efetividade da lei na América Latina: uma conclusão parcial”. Democracia, Violência e Injustiça. O não-estado de direito na América Latina. Juan E. Méndez, Guillermo O´Donnell e Paulo Sérgio Pinheiro (orgs.). Paz e Terra. São Paulo.

As peças e as engrenagens do crime no Brasil


José Maria Pereira da Nóbrega Júnior

A criminalidade tem provocado debates intensos nas redes sociais e nos veículos de mídia. Em Pernambuco, governo e oposição se digladiam em conflitos abertos a respeito da (in)segurança pública do estado, o que tem provocado mais desespero na população. Falta ciência no debate, sobram chutes e pontapés. Contra isso, o cientista social deve focar nas peças e engrenagens do crime para classificá-lo buscando traduzir o seu modus operandi para traçar quais ações devem ser tomadas pela gestão da segurança pública.

Cada evento criminoso tem as suas características próprias. Resultado da observação (conhecimento teórico e empírico) da criminalidade classifiquei alguns tipos de crimes, sua engenharia (peças e engrenagens básicas) e o modo pelo qual o Estado deve agir:

1.  Assaltos a ônibus: é frequente este tipo de crime nas regiões metropolitanas do país. Geralmente, são praticados por pequenos marginais, jovens e pobres. Estes buscam lucro imediato e pequeno. A relação custo/benefício deste tipo de ação é muito desequilibrada, pois o risco é grande para o resultado diminuto da ação. Uma ação pontual do Estado nas linhas de maior risco – que passam por rodovias em horários noturnos, por exemplo – já diminui bastante o espaço desta prática criminosa.

2.   Homicídios: a maior parte das mortes vitima jovens entre 20 e 29 anos de idade, ou seja, em idade produtiva. Estes possuem baixo nível de escolaridade, facilmente recrutados para o crime de pequena e média organização. Requer controle através de diagnósticos estatísticos bem desenhados; ocupação dos espaços pela polícia (áreas quentes); ações preventivas de emprego e renda; prisões focalizadas em homicidas seriados.

3.  Assaltos a bancos/caixas/carros forte/transportadoras de valores: exige maior nível de sofisticação do crime. Os bandidos possuem alto nível de conhecimento técnico, buscam lucros altos. Requer maior sofisticação da Segurança Pública com inteligência. Perpassa a questão policial militar. É fundamental parcerias com ABIN, as Forças Armadas e Polícia Federal. 

     Segurança Pública é uma área setorial de políticas públicas que o Estado deve prover como direito civil e social. Para que esta área seja bem-sucedida, é extremamente importante o uso de pesquisa científica e, sobretudo, de frieza na análise da realidade da criminalidade violenta no estado o qual a política precisa ser exercida. Bons governos tomam boas decisões e para isso a ciência é imprescindível.


José Maria Nóbrega Jr. é cientista político e professor da UFCG.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CRIME ORGANIZADO INTERNACIONAL E PCC

PCC recruta membros das Farc na Colômbia para o tráfico de drogas

A maior organização criminosa brasileira está recrutando membros de um grupo rebelde colombiano que já foi poderoso em busca de armas pesadas e outras habilidades que ajudem a expandir seu controle sobre o comércio de drogas na América Latina, dizem investigadores e autoridades de ambos os países.
Autoridades dos ministérios de Defesa e das Relações Exteriores de ambos os países se reuniram nesta terça-feira em Manaus para compartilhar informações sobre como a organização criminosa brasileira, o Primeiro Comando da Capital, ou PCC, está agindo para contratar guerrilheiros na Colômbia, alguns dos quais optaram por não participar das negociações de paz com o governo colombiano. No ano passado, o governo da Colômbia assinou um pacto de paz com o grupo rebelde marxista, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), e a maioria de seus 6 mil combatentes agora se preparam para entregar suas armas.
“O PCC vem oferecendo empregos para as Farc”, disse o ministro da Defesa da Colômbia, Luis Carlos Villegas, acrescentando que uma investigação está em andamento. A previsão é que entre 5% e 10% dos membros das Farc não aceitem o acordo de paz, segundo autoridades colombianas.
As tentativas do PCC de cortejar rebeldes revelam o desafio do governo colombiano para desmobilizar combatentes envolvidos com o narcotráfico. Os esforços da organização criminosa brasileira para expandir sua influência na Colômbia ocorrem num momento em que a produção colombiana de coca, a planta usada para produzir cocaína, está aumentando. A produção potencial estimada de cocaína subiu 46% entre 2014 e 2015, último ano para o qual há dados relevantes disponíveis sobre a Colômbia compilados pela Organização das Nações Unidas.
O PCC está tentando tirar o controle de rotas de tráfico no Brasil de outros grupos criminosos, eliminar intermediários e trabalhar diretamente com fornecedores colombianos para distribuir cocaína no Brasil, diz Lincoln Gakiya, um promotor paulista que vem investigando as atividades do PCC ao longo de dez anos. Autoridades americanas de agências de combate aos narcóticos dizem que o Brasil é o segundo maior mercado do mundo para a droga depois dos Estados Unidos.
Criado em uma prisão paulista em 1993, o PCC se transformou em um grupo altamente organizado e disciplinado, com 21 mil membros em todo o Brasil, que conta também com uma presença no Paraguai, de acordo com promotores brasileiros. Os líderes do grupo estão presos, mas eles controlam subordinados em favelas urbanas que dirigem o que se tornou a organização mais poderosa no submundo do crime do Brasil.
O principal adversário do PCC, além de gangues rivais, é o aparato militar e federal da polícia brasileira equipada com helicópteros, veículos blindados e armamento moderno.
“O PCC está obcecado em obter treinamento militar”, diz Gakiya. A gangue está buscando metralhadoras de calibre ponto 50, que são capazes de derrubar helicópteros e perfurar carros à prova de bala, bem como alistar partes da rede de combatentes e fabricantes de bombas experientes das Farc, acrescenta o promotor. A correspondência por e-mails entre os membros do PCC em 2015 também mostrou que a gangue brasileira fez esforços para comprar drogas de membros das Farc, diz ele.
As Farc negam ter laços com grupos criminosos brasileiros e afirmam que agora estão dedicadas à paz.
Nos últimos meses, enquanto o PCC colocava a mira na Colômbia, a quadrilha entrou em batalha nos presídios do norte do Brasil, superlotados, com rivais como a fação carioca Comando Vermelho pelo controle das rotas de tráfico. O conflito sangrento causou a morte de cerca de 120 presidiários no início de janeiro em uma série de assassinatos brutais, com muitas vítimas sendo desmembradas e decapitadas.
Jorge Restrepo, diretor do Centro de Recursos de Análises de Conflitos, com sede na Colômbia, diz que qualquer ligação comprovada entre o PCC e as Farc deve ser motivo de preocupação para a Colômbia, onde o governo está batalhando para desarmar os rebeldes. “Seria a primeira vez em muitos anos que grupos criminosos externos estão trabalhando para recrutar as Farc”, diz Restrepo.
As Farc estão agora reunindo suas forças em duas dezenas de vilarejos, com a ONU supervisionando um processo de desarmamento que deve ser concluído em meados deste ano. Os ex-combatentes devem reintegrar-se à sociedade enquanto a liderança do grupo organiza um partido político de esquerda.
“O acordo de paz entre o governo da Colômbia e as Farc é fantástico”, diz Vladimir Aras, promotor que chefia a Secretaria de Cooperação Internacional da Procuradoria-Geral da República brasileira. “Mas ele gera um efeito colateral, que será a ociosidade de muitos membros das Farc.”
Alguns combatentes optaram por não participar do processo. Unidades de guerrilha nas selvas sem lei do sudeste da Colômbia, perto da fronteira com o Brasil, desertaram por causa do pacto de paz. A liderança das Farc expulsou recentemente cinco comandantes dissidentes, todos daquela região.
O ministro da Defesa colombiano, Villegas, diz que espera uma taxa de dissidência de cerca de 5%, mas a organização de monitoramento de crimes InSight Crime estima que o percentual poderia ser muito maior se os membros da base de apoio urbana das Farc forem incluídos, que atuavam em operações de coleta de informações e de provisões para os rebeldes.
As ligações das Farc com o Brasil foram evidenciadas pela primeira vez em 2001, quando militares colombianos prenderam Luiz Fernando da Costa, ou Fernandinho Beira-Mar, líder do Comando Vermelho, no sudeste da Colômbia. Mais tarde, ele admitiu comprar cocaína das Farc e ajudar o grupo a adquirir armas. Condenado por assassinato e narcotráfico, Costa continua preso.
“Há uma história comprovada entre os dois lados”, diz Jeremy McDermott, que monitora o comércio de drogas da Colômbia para a InSight Crime.
ROGERIO JELMAYER / KEJAL VYAS / SAMANTHA PEARSON
Foto: JOSEMAR GONCALVES/REUTERS – Um presidiário usa um escudo com as iniciais PCC durante uma rebelião no presídio de Alcacuz, em Natal, no Rio Grande do Norte.
Fonte: WSJ

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Custo da violência no Brasil chega a quase S$ 76 bilhões em 2014

O valor despendido no Brasil equivale a 53% do custo total da criminalidade na América Latina e no Caribe



A violência custou US$ 75,894 bilhões ao Brasil em 2014, o equivalente a 3,14% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e riquezas produzidos pelo país) naquele ano. O dado está em pesquisa divulgada hoje (3) pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O gasto com a violência no país ficou acima da média registrada para países do Cone Sul, de 2,47% do PIB.

O valor despendido no Brasil equivale a 53% do custo total da criminalidade na América Latina e no Caribe. Além disso, entre 17 países analisados na região, o custo da violência no Brasil ficou abaixo apenas de Honduras (5,84%), El Salvador (5,46%), Bahamas (4,16%) e Jamaica (3,64%). A maior parte dos valores gastos pelo Brasil vai para a segurança privada.

Conforme o levantamento do BID, as despesas privadas compuseram a maior parcela dos custos do crime em 2014, ficando em 47,9% do total. O percentual ficou acima da média registrada para a América Latina e o Caribe, de 42,7%, e para os países do Cone Sul, de 43,4%.
“O Brasil se destaca por seu alto gasto com segurança privada, o que pode ser entendido como indício do sentimento da população sobre o serviço de segurança prestado pelo governo”, destaca o organismo na pesquisa.
No caso das despesas com segurança pública, que corresponderam a 36,1% dos gastos com o crime, ocorreu o inverso. O investimento brasileiro ficou abaixo da média registrada para os demais países do Continente americano. O gasto público médio em segurança representou 39,7% do total para a América Latina e o Caribe e 41,4% para os países do Cone Sul.
Regiões e estados
O estudo avaliou ainda o custo da violência de acordo com a região ou o estado do país. Segundo o BID, “o custo entre estados e regiões [no Brasil] é semelhante, em termos de heterogeneidade, ao observado nos países da América Latina e do Caribe”.
Os maiores custos são verificados nas regiões Norte e Nordeste. Em ambas, o custo médio da violência equivale a 4,2% do PIB. No Centro-Oeste, fica em 3,1% e no Sul, em 3%. A região brasileira com o menor gasto com criminalidade em relação ao PIB é o Sudeste, com 2,7%. Entre os estados, o menor gasto ocorre no Tocantins (2%) e o maior em Alagoas (6,2%).
Por outro lado, há diferenças no tipo de gasto que predomina em cada localidade. No Sudeste (49,5%), Sul (47,2%) e Centro-Oeste (43,2%) o gasto privado com segurança supera o verificado no Nordeste (36%) e Norte (35,2%).
Já o gasto público predomina no Norte (44,6%) e Nordeste (44,3%). No Sudeste (33,3%), Sul (32,6%) e Centro-Oeste (32%), no entanto, essa despesa fica atrás do gasto com segurança privada.
Ações
O BID destaca a importância de fazer pesquisas futuras a fim de estudar o custo-benefício de ações de prevenção e controle do crime. O organismo ressalta que algumas localidades analisadas mostraram melhora na segurança pública.
Em São Paulo, Pernambuco e no Rio de Janeiro, por exemplo, as taxas de homicídio caíram 67%, 33% e 32%, respectivamente, no período de 2000 a 2014. “Vale a pena rever essas intervenções para extrair lições aprendidas para aplicações em outros lugares do Brasil e da região”, conclui o banco.

domingo, 29 de janeiro de 2017

O cárcere alimentando o crime

Por José Maria Nóbrega Jr.



O crescimento da criminalidade no Brasil tem forte correlação com o aumento de sua população carcerária. Entre 1990 e 2014 houve incremento de 575% de pessoas sob a custódia do estado. Isso foi fator decisivo para o surgimento de novas e violentas facções criminosas, já que o estado não foi capaz de manter o controle dentro das prisões.

As principais facções criminosas do Brasil surgiram da lacuna estatal nos sistemas penitenciários do Rio de Janeiro e São Paulo. Comando Vermelho (CV) no Rio e o Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo se tornaram hegemônicos e se expandiram nos demais estados. Até recentemente mantiveram um equilíbrio de poder nos presídios. Mas, com a expansão no norte e nordeste e a ruptura entre as principais facções, o equilíbrio de poder foi desfeito.

A lógica do crime das facções é a seguinte: quanto mais sócios, mais força. Quanto mais pessoas presas, mais poder. Seguindo esta lógica, o próprio estado foi responsável por alimentar o poder das facções, estimulando a criação de novos grupos e, por sua vez, dos conflitos por poder.

Com o equilíbrio de poder desmontado entre as principais facções e o surgimento de novas facções, os membros do PCC passaram a ser ameaçados pelos novos grupos – muitos deles se associaram ao CV -, o que resultou na carnificina que estamos presenciando no norte/nordeste.

O senso comum pressiona o estado por mais rigor nas prisões. Mas, quanto mais presos no sistema, mais indivíduos preenchem as trincheiras das organizações criminosas. As prisões desenfreadas não garantem o controle do crime, pelo contrário, fortalece as quadrilhas criminosas resultando em mais crimes (patrimonial e contra a vida). Muitos indivíduos presos por crimes de menor potencial terminam sendo recrutados pelas quadrilhas e se tornando criminosos violentos.


As medidas paliativas adotadas pelos governos do norte/nordeste não sanarão o problema do conflito entre as facções. Em algum momento a carnificina vai cessar, mas não devido ao controle estatal, e sim ao reequilíbrio de poder entre as facções criminosas dentro dos presídios. O descontrole estatal continuará em nossa rotina.