Pular para o conteúdo principal

Registro de armas de fogo e sua correlação com os homicídios

Os homicídios são um dos principais problemas públicos a ser enfrentado pelos governos (federal, estaduais e municipais). O último dado consolidado registrou mais de 63 mil homicídios dolosos no país (Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 2017). O principal instrumento utilizado nesse crime é o revólver, ou arma de fogo de baixo calibre, com destaque ao revólver 38. Há uma forte correlação entre o uso da arma de fogo com os registros de assassinatos, mas isso não quer dizer que a causa do crescimento dos homicídios numa dada realidade esteja associada a arma de fogo, o meio não pode ser confundido com a causa do crime de homicídio doloso.

Para iniciar um debate conceitual e empírico em torno do uso da arma de fogo como mecanismo de ação do agente criminoso, vou fazer uma correlação entre os números de armas registradas em cada unidade da federação e sua respectiva taxa de homicídios. O método será uma correlação de Pearson (que busca avaliar o nível de associação entre duas variáveis, em colunas de dados, correlacionando o nível de associação entre os dois conjuntos de dados).

A tabela acima destaca as unidades federativas do Brasil com suas taxas de homicídios (ano de referência 2010, dados do Núcleo de Estudos da Violência; cálculo das taxas em cima dos números absolutos de óbitos por agressão do Sistema de Informação de Mortalidade/SUS/MS) na primeira coluna; e as taxas de regulação de arma de fogo por 1.000 armas em circulação (dados do Sistema Nacional de Armas, ano referência 2009), na segunda coluna.

Correlacionando as duas colunas verificamos um resultado R=0,033, ou seja, correlação nula. Há nos números unidades com taxas de homicídios altas e dados de registros baixos e vice-versa; dados de registros altos, com homicídios altos. Ou seja, não há correlação entre os números de armas registradas e o volume de homicídios.

Isto nos alerta para duas coisas:

1. quando vai se analisar o efeito da arma de fogo na criminalidade, é importante a construção de hipóteses claras do ponto de vista das variáveis que se quer testar;

2. não confundir instrumento da agressão com a causa da mesma.

Muitos homicídios são perpetrados por arma branca, objeto contundente e outros instrumentos, em muitas realidades em 20%, 30%, 45%, 57%, até 70% dos casos. No caso do Acre, 70% dos homicídios foram perpetrados sem arma de fogo, em 2011 (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública).


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marielle e os homicídios

Cientista Político José Maria Nóbrega

A última semana foi muito difícil. O caso do assassinato brutal da vereadora pelo PSOL do Rio, Marielle Franco, fez entrar em erupção uma série de postagens nas redes sociais, de todos os vieses ideológicos, algumas beirando a total falta de humanidade. Marielle era uma mulher interessante, engajada na causa pelos mais pobres e excluídos das favelas do Rio de Janeiro, lutava contra a violência estatal. A investigação está em curso e muito se especula sobre o assunto. Mas, quantas mulheres são assassinadas por ano no país? Qual o perfil estatístico da vítima de homicídio? Quais as causas da violência homicida? Isso, ninguém parece querer saber. No último ano disponível nos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2017), foram 4.657 mulheres assassinadas no país, o que equivale a 7,5% dos mais de 61 mil homicídios, em 2016. O perfil estatístico da vítima de homicídio no Brasil é jovem, do sexo masculino, tem entre 15 e 39 anos de idade, baixo…

As instituições importam: como a carga tributária, o IDH, o retorno social dos impostos, a segurança pública e a qualidade das democracias estão fortemente correlacionados

Douglass North, economista prêmio Nobel de economia de 1993, desenvolveu uma das mais relevantes teorias sobre o desempenho das economias que se tem conhecimento. A obra "Instituições, mudança institucional e desempenho econômico", resultado do desenvolvimento de sua teoria institucional, inicia, logo no prefácio, afirmando: "A história importa". Ou seja, a história da formação das instituições importa na condução do desempenho econômico de um dado país.
As instituições de um país são a força motriz para o desempenho salutar da economia. Esta requer insumos para sobreviver e, claro, de Estado - que é um conjunto de instituições públicas - que seja capaz de reduzir os "custos de transação" da atividade econômica.
Para que uma economia seja realmente abrangente e capaz de absorver a sociedade, alguns aspectos do Estado são fundamentais: 
1. garantir a propriedade privada para os indivíduos (bens, vida e liberdade); 2. que a lei seja erga omnes; 3. que a cr…

As Instituições Coercitivas e o Controle Social

José Wilas Pereira - Graduando em Gestão Pública pela Universidade Federal de Campina Grande e, bolsista PIBIC. Aluno do Curso de Extensão em Gestão em Segurança Pública (CRDH/CDSA/UFCG).



RESUMO

A qualidade dos bens e serviços prestados pelo Estado a sociedade depende decisivamente da eficiência e eficácia das instituições estatais. Na área da segurança pública por sua vez, as políticas são de responsabilidade das instituições coercitivas, que estão incumbidas de manter a ordem pública através do estrito cumprimento da lei. Não obstante, a ineficiência institucional visualizada por meio dos altos níveis de criminalidade violenta existentes em algumas sociedades, prejudica a existência de um Estado Democrático de Direito, desaguando para uma Democracia defeituosa ou semidemocracia. Contudo o desempenho das instituições coercitivas aliado a um modelo de gestão que proporcione accountability institucional torna-se fator determinante para a qualidade da segurança pública e, por isso a manut…