Violência no Brasil (2012/2025)

A violência é apontada como o principal problema a ser enfrentado pela gestão pública brasileira. Pesquisas eleitorais recentes demonstram que o eleitor brasileiro tem na violência e no avanço das facções criminosas suas principais preocupações, superando os problemas econômicos. Dito isto, é relevante destacarmos alguns números do recém publicado Anuário Brasileiro de Segurança Pública, de número 20, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Nele é possível percebermos que o país vem numa contínua queda dos números de Mortes Violentas Intencionais (homicídios dolosos, agressões seguidas de morte, feminicídios, mortes decorrentes de intervenção policial, latrocínios e mortes de policiais) no agregado. No entanto, algumas nuances estatísticas são importantes de serem destacadas.

Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Essa queda se mostra importante sobretudo a partir de 2018. Entre 2017, com 64.079 MVIs, e 2025, com 40.775, a variação percentual foi de impressionantes -57,15%. Como podemos verificar no gráfico acima, o recuo foi enfático nos anos de 2018 e 2019, com novo crescimento em 2020 e depois, de forma mais ténue, quedas ano a ano até o último ano da série que foi o menos violento desde 2012.

Mesmo com a queda, a sensação das pessoas, reveladas nas pesquisas de opinião eleitoral, demonstra uma crescente preocupação e não é por desinformação. As facções criminosas dominam expressivos territórios pelo país e que, em algumas pesquisas do próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 60 milhões de brasileiros vivem sob algum tipo de interferência dessas organizações criminosas. Onde há domínio territorial hegemônico, como em São Paulo com a força imperial do Primeiro Comando da Capital (PCC), os conflitos são menores. Já em regiões onde há mais presença de disputas por território, como em Salvador (BA), há mais registros de assassinatos.

Contudo, há de se pensar nesses números além do processo de redução, que, na minha visão, não deve ser comemorado com ênfase. De 2012 a 2025 foram assassinadas 737.883 pessoas no Brasil (de acordo com o somatório dos dados do gráfico acima de MVIs). O país é responsável neste período entre 10% e 14% dos homicídios do mundo. Ainda é o país mais violento do mundo em termos de números absolutos de homicídios, não obstante a queda importante dos dados e de uma taxa que vem caindo constantemente e que o dado mais recente, 2025, foi de 19,1 MVIs por cem mil habitantes.

Em pesquisa que publicamos no último número da Revista Brasileira de Segurança Pública, demonstramos que a sobrecarga no sistema de investigação criminal é fator determinante para o nível de elucidação dos casos de homicídios no Brasil. Ou seja, quanto maior for o número de homicídios perpetrados numa dada região, mais dificuldade em se punir, em se aumentar o custo de transação para o seu cometimento (ARAÚJO; NÓBREGA JR., 2026).

Então, mesmo com a redução contínua dos dados, ainda somos campeões de violência no mundo e isso nos coloca muitos desafios, com destaque ao controle das facções criminosas que hoje são de 88 registradas no sistema nacional penal. A região mais violenta do país, o Nordeste, é justamente onde se encontra a maioria dessas facções, são 46 das 88, com destaque a Bahia que aglutina 21 dessas organizações criminosas.

Continuando analisando os números do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, temos que destacar as dez cidades mais violentas do país, cidades essas com populações igual ou superior aos 100 mil habitantes, sendo elas:

Ranking

Município

UF

Taxa de MVI

1

Maranguape

CE

100,3

2

Eunápolis

BA

85,1

3

Maracanaú

CE

80,7

4

Porto Seguro

BA

71,2

5

Simões Filho

BA

68,1

6

Jequié

BA

67,4

7

Caucaia

CE

66,6

8

Cabo de Santo Agostinho

PE

65,1

9

Santa Rita

PB

60,9

10

Juazeiro

BA

55,8


Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Das dez citadas, cinco estão situadas na Bahia, com três no Ceará, uma na Paraíba e outra em Pernambuco. Destacamos mais uma vez a Bahia, que concentra a maior parte das facções criminosas do país e que é, também, onde mais a polícia mata, com 1.570 mortes decorrentes de ações policiais em 2025, disparada a mais violenta do país.

As facções criminosas também estão grassando no estado do Ceará. São muitas as matérias jornalísticas e as investigações policiais de grupos criminosos organizados interferindo na vida do cearense nos últimos anos. Ceará e Bahia juntos foram responsáveis por 8.693 MVIs dos 40.775 registrados em 2025, correspondendo a 21,2% dessas mortes. Ou seja, mais de 20% dos homicídios perpetrados no Brasil se deram em apenas dois estados do Nordeste.

Maranguape, Maracanaú e Caucaia são cidades apontadas com maior presença de facções criminosas. Essas cidades são constantemente alvo de disputas entre facções como o Comando Vermelho e os Guardiões do Estado, resultando em confrontos sangrentos e, consequentemente, aumento da violência. O Ceará tem enfrentado um aumento da criminalidade, não obstante a queda de sua taxa de MVIs entre 2024 e 2025, na ordem de -7,5%, mas com uma taxa de 34,7 em 2025.

Traçando uma média do período 2012/2025 no Brasil, obtemos o dado de 52.705 óbitos com a taxa média de 25,46 por cem mil. A taxa pico se deu em 2017, com 31,2/100 mil; com a taxa menor sendo a do já citado ano de 2025, com 19,1. Isso nos alerta para o fato de que o Brasil é um país continental e que as taxas são díspares, com os dados muito altos no Nordeste e mais baixos em cidades do Sul e Sudeste. Santa Catarina, com taxa de 7,6/100 mil é o estado menos violento do país.

Gráfico 2. Taxas de MVIs - Regiões do Brasil - 2025


Fonte: 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Controlar a violência no Brasil ainda continuará sendo o grande, se não o maior, desafio do país. O Nordeste é o ponto crítico com o maior indicador de violência homicida, como podemos ver no gráfico acima. Concentra a maioria das facções criminosas e os estados com maior número de MVIs do Brasil. O foco deve ser o Nordeste no combate às facções criminosas que vem ameaçando a estabilidade social e política dos nordestinos. 

José Maria P. da Nóbrega Jr. - Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE) | Professor Associado (UFCG) | Coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, da Criminalidade e da Qualidade Democrática (NEVCrim/UFCG/CNPq).

REFERÊNCIAS

 20º ANUÁRIO BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2025. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública - Fórum Brasileiro de Segurança Pública

ARAÚJO, A. R.; NÓBREGA JR., J.M. (2026), “Sobrecarga do Sistema de Investigação Criminal Brasileiro: uma análise dos fatores institucionais na investigação dos homicídios no Brasil”. Revista Brasileira de Segurança Pública. São Paulo V. 20, n. 2, 258-275, mai/jun 2026.

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